Hoje eu acordei
com uma imensa vontade de colocar no papel algo sobre a minha trajetória de
vida. Recorri às fotos antigas, aos escritos amarelados, aos documentos
arquivados e, principalmente, às minhas memórias afetivas: presentes e
passadas.
Nasci no sítio
no seio de uma família grande em extensão e pequena em posses por isso logo
percebi o mundo que me esperava não era tão pequeno quanto parecia. Era grande,
e muito. Mas os meus pensamentos fizeram de mim, um ser grande. Não em ganância,
mas em ideias...
O que esperar
de um pai agricultor que a única terra que tinha era a das unhas dos pés? E de
uma mãe lavadeira de roupa que não tinha condição de me colocar numa boa escola
nem mandar para outra cidade quando terminasse a 4ª série? Como conseguir
comprar uma roupa nova pra vestir noite de festa? Como ter um trocado pra
comprar, no recreio da Escola Vicente Gurgel, o doce seco de Zefa de Chico Doca
ou alfenim de Dionísia de Antônio Galdino?
Já sei!!! A
educação é a resposta pra tudo isto!!!
Não se consegue
nada com facilidade. E quem é pobre, menos ainda.
No meu tempo de escola tão tinha um transporte que passava na porta da casa,
não tinha merenda, mas não perdia um dia de aula. A não ser que o Riacho de
Manoel Nem não desse passagem.
Num misto de
dificuldade e alegria consegui concluir o primário no Grupo Escolar Vicente
Gurgel. Indo para a Escola de 1º e 2ª Graus Daniel Gurgel cursar o 2º grau,
hoje ensino médio. À época, minha mãe juntava um dinheirinho de lavagem de
roupa pra pagar a mensalidade. Sim, porque quando começou tinha que pagar a
mensalidade. E o pai que tivesse dois filhos matriculados só pagava um.
Conclui o
ensino médio. Curso de Auxiliar de escritório. Faço vestibular pra o curso de
Letras pela FURN- (é o novo!!) uma, duas vezes e nada.Em Janduís, na Escola
Municipal Aluízio Gurgel chega o curso magistério e eu já trabalhando na
referida escola, como Professor de Educação Artística matriculei-me. Ao
concluir tentei novamente vestibular, dessa vez pra Pedagogia para o Campus de
Patu. Consegui êxito e conclui o curso em solenidade de 10 de fevereiro de
1996.
Nessa
trajetória construí muitas amizades, encontrei uma namorada que é hoje minha
esposa e realizei alguns dos sonhos, fiz conquistas importantes pra minha vida
pessoal e profissional.
Ao concluir o
curso de Pedagogia achei que ainda faltava algo. Um filho de Honório do Clarão
não deve ser apenas “formado”. Ter um título é coisa bonita, principalmente pra
quem não tem “posses”. Já pensou um dia eu com um doutorado?
Entrei pra um
curso de Pós-graduação a titulo de especialista em gestão educacional pela
Faculdade Integrada de Patos-FIP. Em 2012 e resolvo me inscrever no PSV da UERN
para o curso de Letras. Não é que sou aprovado?
Grandes
desafios. 1º: curso matutino. 2º: não tem transporte à disposição nesse
horário; 3º: já estou com 47 anos de idade e quando terminar o curso, devo
estar me aposentando de sala da aula. Mas... eu não disse que ia fazer o curso
de LETRAS apenas pra ser professor.
Hoje eu estou
frente ao “meu” computador.
Digo isto
porque há 16 anos conclui o curso de Pedagogia, não tinha como registrar meus
escritos, pois comutador, mesmo já existindo, era difícil. Maquina de escrever,
só das repartições públicas. Já não existia o curso de datilografia na Junta de
Serviço Militar. A alternativa era fazer manuscrito. Ai já viu, é perder-se
logo, ou virar páginas amarelas.
Aos 47 anos de
idade, minha esposa e um bocado de gente me presentearam um computador chamado
de notebook que você pode levar a tiracolo. Numa festa que nunca tive em intera
de ano, enquanto morei no Clarão, porque lá de grande só o campo de aviação e o
açude 17.
Eu comecei esse
texto dizendo que tinha acordado com uma vontade imensa de colocar um pouco da
minha trajetória de vida. Pois bem, começa mais uma etapa e agora, além de
poder registrar no “meu” computador eu construí também a oportunidade de
produzir por escrito as minhas ideias e transformar em LETRAS a linha do meu
tempo.
Valdécio Fernandes Rocha.